Justiça decreta prisão preventiva de 23 PMs investigados na Chacina no Tocantins

Militares são suspeitos de participação em execuções ocorridas em 2022 como represália à morte de sargento da PM; investigação aponta uso de viaturas, armas oficiais e destruição de provas

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A Justiça do Tocantins determinou a prisão preventiva de 23 policiais militares investigados por suposto envolvimento na chamada “Chacina de Miracema”, série de execuções registradas em 2022, em Miracema do Tocantins. Os crimes teriam sido motivados por vingança após a morte do sargento Anamon Rodrigues de Sousa.

Os militares se apresentaram ao Comando-Geral da Polícia Militar, em Palmas, nesta sexta-feira (8), após acordo firmado com o Ministério Público. A medida é considerada um avanço nas investigações de um dos episódios mais graves envolvendo agentes de segurança pública no estado.

A defesa dos policiais, representada pelos advogados Paulo Roberto e Antônio Ianowich, afirmou à TV Anhanguera que acredita na inocência dos investigados e que pretende demonstrar a inexistência de fundamentos para a abertura de inquérito e para as prisões.

Segundo as investigações, os policiais teriam utilizado a estrutura do Estado para organizar os ataques, incluindo viaturas oficiais, armamentos da corporação e comunicação por meio de um grupo em aplicativo de mensagens denominado “Operação Anamon”. A apuração também aponta indícios de tortura, fraude processual e destruição de provas, incluindo o desaparecimento de HDs contendo imagens de câmeras de segurança.

O Colegiado de Juízes da 1ª Vara Criminal de Miracema considerou que a permanência dos investigados em liberdade representa risco à ordem pública e à instrução criminal, devido à possibilidade de intimidação de testemunhas e ocultação de provas. Os policiais envolvidos já estavam afastados das funções e com o porte de arma suspenso.

Em nota, a Polícia Militar do Tocantins informou que acompanha o caso por meio da Corregedoria-Geral e afirmou prestar apoio institucional às autoridades responsáveis pela investigação. A corporação declarou ainda que não compactua com desvios de conduta e que os fatos serão apurados pelos órgãos competentes.

Sequência de mortes

De acordo com as investigações, após a morte do sargento Anamon Rodrigues de Sousa, ocorrida em 4 de fevereiro de 2022 durante um confronto em uma plantação de mandioca, outras seis pessoas foram assassinadas em curto intervalo de tempo.

A primeira vítima foi Valbiano Marinho da Silva, morto dentro da casa da mãe sob suspeita de participação na morte do policial militar. Horas depois, o pai e o irmão dele, Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva, foram executados dentro de uma delegacia após a invasão do local por homens encapuzados.

No dia seguinte, os jovens Aprigio Feitosa da Luz, Gabriel Alves Coelho e Pedro Henrique de Sousa Rodrigues foram encontrados mortos no loteamento Jardim Buriti.

As investigações apontam que os três estavam em um posto de combustíveis onde policiais recolheram imagens de câmeras de segurança. Eles teriam sido colocados em veículos brancos sob o argumento de que seriam levados à delegacia, mas acabaram executados no loteamento.

Organização criminosa e destruição de provas

A Polícia Civil sustenta que os crimes foram coordenados por meio do grupo “Operação Anamon”, criado poucas horas antes das mortes ocorridas na delegacia. O planejamento incluiria monitoramento prévio das vítimas, divisão de tarefas e utilização de recursos públicos nas ações.

As apurações também indicam adulteração nos sistemas de rastreamento por GPS das viaturas e desligamento estratégico de aparelhos celulares para dificultar a localização dos envolvidos. Além disso, policiais teriam recolhido ilegalmente HDs de câmeras de segurança de um posto de combustíveis para eliminar registros da movimentação das equipes.

Entre os investigados estão oficiais que ocupavam cargos de destaque na corporação e no governo estadual. O tenente-coronel Douglas Luiz da Silva, que exercia a função de ajudante de ordens do governador, foi afastado pela Casa Militar.

Também tiveram prisão decretada os majores Wallas de Sousa Melo, Yurg Noleto Coelho e Wilquer Barbosa de Sousa, além do capitão Gleiston Ribeiro Pereira. Segundo a investigação, o major Yurg Noleto Coelho seria uma das lideranças informais do grupo, responsável por coordenar ordens e posicionar viaturas durante as execuções.

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